sábado, 11 de novembro de 2017

Compramos Almas

 Bom dia, em que posso ajudá-lo?
- Bem, eu estava passando e recebi este papelzinho do rapaz ali fora e fiquei interessado. É isso mesmo, vocês compram almas?
- Sim, é isto mesmo, de todos os tipos.
- Mas como funciona?
- Nós avaliamos sua alma e damos um valor, quanto mais pura melhor.
- Como assim, mais pura?
- Nós avaliamos a quantidade de pecados que a pessoa tem, e quanto menos pecado mais pura e mais valiosa, a alma é. Por exemplo, se você for um falso devoto ou um enganador religioso,a gente não paga nada, esta alma vai ser nossa mesmo. Agora, se você for realmente bom, e em um ato desesperado, e está precisando de dinheiro, a gente também não compra.
- Por que?
- Simples, você vai se sentir culpado e vai fazer um montão de coisas boas, e aí o pessoal de lá de cima, pode relevar. E quanto o chefe de lá, diz que é dele. Ninguém pode fazer nada. Você tem que estar no meio do caminho. Interessado na avaliação, é totalmente gratuita.
- Sim, sim.
- Seu nome, para o sistema reconhecer... Obrigado. Pois bem, só precisa as perguntas básicas, para gravar a sua voz respondendo: Você tem religião? Pratica?
- Sim, eu vou a Igreja aos domingos e faço minhas orações toda a noite.
- Bom, em quem votou na última eleição?
- E isto tem importância?
- Ah, se tem! E se apoiou o golpe/impeachment. Se comemorou ou não a vitória do Trump. Se sonega imposto, se molha a mão do guarda quando pego bêbado. Se trai o/a companheir@, caso seja com o/a melhor amig@, então nem se fala, é super desvalorizado! Se baixa filme/jogo pirata, se vê vídeo pornô, se come carne de porco, qual tipo de tecido utiliza na roupa. São muitas perguntas...
- Mas demora muito?
- Demora sim, é porque o ser humano é muito complexo.
- Obrigado mesmo, mas não estou interessado.
- Mas não tem problema não. Pelo seu histórico, aqui no sistema, nos veremos em breve!


por Marcelo Daltro

Jesus Revolucionário

Jesus era revolucionário, seu discurso ia contra a elite política e religiosa judaica e foi assassinado pelo Estado Romano como subversivo, entre ladrões. E isto nem bispo, nem deputado, nem direitista conversador pode mudar. Se viesse hoje, Jesus seria acusado de "petralha, comunista, esquerdopata, vândalo, etc", pela imprensa e redes sociais. Teria uma advogada louca girando camisa e mandando ele para cruz! Queria ver quantos frequentadores de Igreja iriam seguir o messias, quando ele falasse para repartir seu dinheiro com os pobres. E o que Ele faria quando visse venderem "tijolinhos" em sua Igreja. Macedinho em seu "comunicador de ouro", Malafaiazinho e o cacete a quatro, milionários com a fé do pobre, seriam escorraçados de seus templos? Não, pegariam o louco, e com seus seguranças particulares, ou com o apoio público da PM e afins, o esculachariam e meteriam em um camburão a figura. Para depois apodrecer em uma cela esperando julgamento, ou numa queima de arquivo qualquer.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Palavrão

Foda-se. Vai tomar no cú. Vai para puta que pariu. Seu filh@ da puta. Vai para casa do caralho. Viado. Puta. Piranha. Vagabund@. Preguiços@. Isto te ofende? Isto te choca? Então tome mais cuidado ao escrever, porque às vezes, mesmo com palavras diferentes é esta a mensagem que você passa. Muitas vezes ofendemos e magoamos as pessoas, explicitamente ou não. Um pouco de empatia não faz mal à ninguém.

domingo, 8 de maio de 2016

Culpado ou não culpado eis a questão.

Ninguém deveria ser culpado pela infelicidade do outro, é um peso muito grande para se carregar. A vida é feita de escolhas e qualquer idiota sabe disso. Às vezes as escolhas são bem sucedidas, às vezes resultam em fracasso retumbante. Tem horas que escolhemos entre o bom e o mau, o melhor e o pior. E, tem horas que escolhemos entre o ruim e o pior ainda. Não jogo a culpa de meus fracassos em ninguém, e não é fácil, porque é bem menos traumático, quando culpamos o outro. Não há necessidade de autorreflexão. 
Às vezes fazemos acordos com os nosso parceiros, mas nem sempre conseguimos cumprir. Por que? Somos humanos, falíveis, e sempre que fazemos uma escolha, procuramos fazer a melhor opção. Entretanto, nem sempre a resposta é positiva. Mesmo quando fazemos tudo para chegar a um determinado resultado, nem sempre é possível. Só existem três medalhas no pódio e milhares de competidores. 
E mesmo aqueles que acreditam no divino, no destino, na sorte, nem sempre ele é infalível. Lembro de que próximo a minha residência tinha uma festa de um determinado político, com distribuição de brindes em homenagem ao dia das crianças. O nosso computador tinha queimado e iriam sortear computadores. Eu nem quis pegar o bilhete para competir. Mas uma senhora passou e entregou na minha mão. Aqueles que acreditam no destino, devem estar pensando, é um sinal. Eu também pensei. Fiquei até o final da festa com meu filho pequeno e esposa. E foram sorteados quase trinta computadores e umas trinta bicicletas. Nem preciso dizer que não ganhei. Saiu o número antes do meu e o depois! E nada, voltei para casa com meu filho cansado e decepcionado chorando. É, a vida não é um conto de fadas.
Minha mãe doente internada no UPA precisando de transfusão de sangue, lutamos durante dois dias para transferência, eu e meus irmãos, fui até a Defensoria Pública e consegui um mandato e nada. Por volta da meia noite de sábado, conseguimos a transferência. A doutora nos chama para conversar: ela não poderia resistir a viagem. Perguntou quem iria, meus irmãos não tinham condições psicológicas para ir. Eu falei que iria, e fomos rezando para ela conseguir chegar ao hospital, para ter uma chance. Ela conseguiu chegar e receberia a bolsa de sangue no dia seguinte. Passei a madrugada fora do hospital, congelado porque fazia frio, mas feliz com a esperança de que ela sobreviveria. Três dias depois ela morreu, eu fui o último a falar com ela ainda acordada,  ela me pedia para levá-la para casa, e fui o último a vê-la inconsciente. No fundo, eu sabia que seria a última vez que a veria. De madrugada ligaram para gente e pediram para ir ao hospital. Fui, de novo sozinho, para o hospital temendo o pior, que seria receber a notícia de sua morte. Quando cheguei no hospital e vi sua cama recolhida, já sabia, o médico só confirmou. Reconheci o corpo e fiquei à frente do enterro. Não chorei em nenhum momento, tinha me prometido na ambulância no caminho para o hospital que só choraria quando tudo acabasse. E depois do enterro, consegui chorar um pouco. E sabe porque não consigo chorar de verdade. Porque me sinto culpado, mesmo que racionalmente saiba que não tenha culpa nenhuma. Culpado por não ter feito mais.
Então se a minha vida está ruim, se eu tenho um péssimo emprego ou estou desempregado, se minha esposa está doente e não pode se tratar normalmente, se meu filho não tem o mínimo para ter uma vida decente, se eu não consigo passar em um concurso público, se eu não faço a licenciatura e posso finalmente dar aula, se vamos ser despejados de novo da casa onde moramos, se minha esposa está infeliz. Eu sei que a culpa é minha! Minha culpa, máxima culpa. Carrego tantas culpas, que se fossem representar minhas pegadas na areia, minha pegada seria funda até o joelho.
Contudo se você que ler isso, achar que vou me matar, pode ficar tranquilo. A minha morte não resolve nenhum problema, ela só aumentaria os problemas dos outros. E sou tantas coisas, mas nunca fui covarde.
Sim sou culpado, e não coloco esta culpa em ninguém, mesmo sendo um fardo muito pesado para carregar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A sina do artista

A sina do artista
        Marcelo Daltro

O leigo admira,
o especialista critica,
e o artista em seu ego:
sobe e desce,
desce e sobe.

Cortando-lhe o peito ou alegrando-se,
ganhando rios de dinheiro ou passando fome.
O artista segue seu fardo,
lançando sua arte como garrafas ao mar.
Na busca incessante que sua mensagem seja lida.

E assim, o artista deixa sua  marca
nesta frágil existência.
Tentando vencer o esquecimento
e alcançar a imortalidade.

A arte de fracassar

Texto que iria publicar em fevereiro de 2015

Eu nunca tive um diário, mas acho que de vez em quando é necessário escrever, porque nem sempre temos ou queremos falar de nossos problemas. Se você é assim saiba que não está sozinho. Não sei porque insisto em desenhar. Me falam faça isso e vou lá e faço, e nada. Faça aquilo vou lá e faço e nada. Das duas uma ou sou muito azarado ou muito medíocre. Será que estou relegado a ter subempregos para sempre, ater sempre pouco ou nenhum dinheiro, a morar de favor na casa dos outros. Ontem meu filho falou que queria morar na casa do vizinho, que tem tudo o que ele queria: tem videogame, gato, cachorro, e um quarto só para ele. E a gente morando de favor na casa da minha sogra. Amanhã começo em mais um subemprego que vai dar um salário para sobreviver, mas que não resolve a nossa situação. E o concurso público tão almejado, fica cada vez mais longe. E o engraçado é que várias pessoas que conheço passam em concursos excelentes e estão com a vida ganha. Mas fazer o quê? Desistir? Não, sou burro e teimoso demais para isso.


Update: Estou no mesmo emprego até hoje, não considero mais um subemprego, aprendi muito com ele e com as pessoas com quem trabalho! Algumas considero amigos. Ainda moro na casa da minha sogra, mas hoje tenho perspectivas de morar de novo na minha casa. E ainda não passei de novo em um concurso público. E acho que me cobro demais conheço poucas pessoas que passaram em três concursos públicos e em dois vestibulares públicos! :D

Responsabilidade

O essencial é invisível aos olhos, disse um certo príncipe. E que você é eternamente responsável por que aquele que cativa. Acho que deveria ter dito também que o indivíduo não é uma ilha. Falo isso porque às vezes esquecemos que fazemos parte de uma sociedade, e que somos responsáveis em parte ou no todo, por tudo que acontece nela. Legitimamos leis, alimentamos os mercados, reafirmamos a cultura em que nós vivemos. E criticamos o que nós mesmos ajudamos a criar. Somos agentes ativos da História e mesmo que nosso papel seja invisível aos olhos, nós somos eternamente responsáveis por aquilo que criamos.